A construção na encruzilhada
Luiz Henrique Ceotto *
O desempenho das edificações se tornou assunto importante
com o fim da carência da Norma de
Desempenho (NBR 15.575) em 12 de
maio. O tema tem suscitado discussões
sobre assuntos como o impacto dos níveis
de desempenho da norma nos custos de
construção, os custos com assistência técnica
advindos dos prazos de garantia previstos,
a questão do desenvolvimento tecnológico
na construção, a qualidade de
projetos e outros. Desses, o que tem mais
preocupado a construção é o custo da assistência
técnica decorrente das patologias
nas edificações.
“Engenheirar” significa projetar, produzir
ou construir produtos para um conjunto
ou “envelope” de desempenhos esperados.
Toda vez que um produto se comporta
abaixo daquele projetado diz-se que ele
tem um “mau desempenho”. Pela NBR
15.575, isso acontece num edifício quando
o desempenho em uso é abaixo do
esperado, causando desconforto funcional,
operacional ou visual aos seus usuários.
Quando esse desconforto é muito grande
e ultrapassa limites aceitáveis, dizemos
que temos uma patologia.
"A Norma de Desempenho dará evidência
às patologias"
O termo patologia foi importado da medicina
e para efeitos da construção de edificações
pode ser definido como a manifestação
física ou funcional de um mau
desempenho quando esse ultrapassa
valores fixados além dos quais são considerados
inaceitáveis.
A patologia tem sido mais associada a
fissuras de grandes proporções, destacamento
de revestimentos, ou infiltrações.
Entretanto, o termo deve ter uma abrangência
maior, significando desempenho
inaceitável para qualquer sistema da construção.
Se um edifício foi concebido para
que o tempo de espera médio de seus elevadores seja de 2
minutos, e durante seu uso verificou-se uma média de 2,5
minutos, o edifício tem mau funcionamento
de seus elevadores, mas não uma patologia.
O tempo de espera de mais 30 segundos
não inviabiliza o uso dos elevadores,
embora introduza algum desconforto.
Mas se esse tempo for de 4 minutos, provocando
grandes filas e trazendo redução
no fluxo de pessoas, inaceitável para o funcionamento
do edifício, existe uma patologia
no sistema de elevadores.
O fator tempo tende a afetar também a
maioria dos sistemas de um edifício durante
seu funcionamento, tendo maior impacto
no envelhecimento de alguns sistemas
do que em outros, deteriorando suas
condições de funcionamento até o limite
da ocorrência de patologias. Quando isso
ocorre, diz-se que aquele sistema do edifício
atingiu sua vida útil.
A NBR 15.575 define vida útil como
sendo o período de tempo durante o qual
o sistema pode ser utilizado sob condições
satisfatórias de segurança, saúde e higiene.
Durante a vida útil, a manutenção preventiva
e periódica devolve aos sistemas
as necessárias margens de segurança em
relação ao patamar de desempenho inaceitável,
postergando sua vida útil.
Um mau desempenho e no seu extremo
uma patologia podem ser causados
por inúmeros fatores nas fases de desenvolvimento
do edifício.
A natureza do prédio
demanda requisitos de desempenho
diversos, implicando soluções que motivarão
processos construtivos, soluções de
projeto e especificações para cada uso.
Essas especificidades poderão produzir
incidência de patologias diferentes, mas
que divergem pouco da lista abaixo:
• Infiltração em lajes, telhados, reservatórios
e fachadas.
• Vazamento de sistemas hidráulicos.
• Fissuras em paredes.
• Desplacamento de revestimentos argamassados
e cerâmicos.
• Deterioração prematura de pinturas externas.
• Infiltrações em esquadrias.
• Mau funcionamento de elevadores (paradas
constantes, trepidação, barulho etc.).
Com as mudanças climáticas, outras
patologias têm surgido, dentre elas:
• Inundação nos edifícios por retorno
de
água pluvial e esgoto da rede pública.
• Entrada de água em garagens por enxurradas
em rampas/escadas de acesso.
• Inundação dos pisos externos do pavimento
térreo e coberturas.
• Queima dos sistemas elétricos (picos e
quedas constantes de energia).
"Até quando
vamos construir de forma
forma obsoleta e
pouco produtiva?"
De forma geral, o processo construtivo
usado em nossos edifícios tem se tornado
fonte grande e insolúvel de patologias, principalmente
na construção habitacional.
O aumento da altura dos edifícios nas
grandes cidades, o aumento dos níveis de
subsolos, a necessidade cada vez maior
de grandes vãos estruturais e a necessidade
de prazos menores para as obras
têm colocado o nosso processo construtivo
“convencional” em permanente questionamento.
Nele, a interação dos subsistemas
é pouco resolvida, também agravada
pela falta de acesso para a manutenção.
Para vencer grandes vãos, as deformações
presentes na estrutura provocam
grandes tensões nas alvenarias e revestimentos,
ocasionando fissuras e esmagamentos
de paredes. Intervenções nos sistemas
hidráulicos são feitas através de
quebras e rasgos em alvenarias. A fixação
de revestimentos externos com argamassa
tem se fragilizado com os constantes
ciclos de variação de temperatura e umidade,
provocando descolamento de cerâmicas
e deterioração precoce de pinturas.
Uma questão que o setor precisa enfrentar
é até quando insistiremos em construir
de forma obsoleta e pouco produtiva?
Quando enfrentaremos os preconceitos
que nos mantêm atados a essa atual barreira
tecnológica?
Além de uma ampla e irrestrita revisão
tecnológica no processo construtivo, precisamos
adotar procedimentos gerenciais
que possibilitem melhoria constante na
qualidade dos edifícios. Alguns itens nesse
sentido são sugeridos a seguir, para as
etapas de desenvolvimento do edifício:
Concepção:
• Premissas de projeto mais voltadas para
a fase de operação do edifício e ao seu
desempenho.
• Fixação de metas de custos de construção
factíveis com o desempenho do produto
pretendido.
• Fixação de verbas de assistência técnica
compatíveis com o produto pretendido.
Projeto:
• Desenvolvimento de processo eficaz de
coordenação de projeto.
• Escolha de processo construtivo compatível
com o desempenho pretendido e com
a facilidade de manutenção. Cuidado redobrado
na solução entre as interfaces dos
sistemas e as partes do edifício.
• Desenvolvimento de processo de “lições
aprendidas” no final de cada etapa do
empreendimento e na pós-ocupação.
• Alteração e evolução das diretrizes
de
projeto com as “lições aprendidas”.
• Atenção máxima com o impacto das
mudanças climáticas nos edifícios.
Construção:
• Desenvolvimento de um plano de qualidade
do empreendimento eficaz e menos
burocrático.
• Atenção especial no controle da execução
das interfaces entre os sistemas e partes
do edifício.
• Comissionamento detalhado dos sistemas
prediais.
• Discussão e registro das “lições
aprendidas”
após a execução de cada etapa de
obra com feedback para o processo de
projeto e diretrizes de execução.
Uso e manutenção:
• Garantir a operação do edifício dentro
do
envelope de uso projetado.
• Manual de uso e manutenção completo
e bem fundamentado.
• Pesquisa pós-ocupação.
• Gerenciamento predial profissional e eficiente.
• Controle das modificações feitas pelos
clientes nas áreas privativas no impacto
do desempenho dos sistemas e áreas comuns.
• Assistência técnica ágil e formadora
de
um bom banco de dados sobre suas intervenções.
• Discussão e registro das “lições
aprendidas”
com feedbackpara as fases de concepção,
projeto e construção.
Com a consolidação da Lei de Defesa
do Consumidor e a vigência plena da NBR
15.575, não é mais possível deixarmos de
lado uma ampla discussão sobre a evolução
de nosso processo de desenvolvimento
de produto bem como do nosso processo
construtivo. O risco é de nossas empresas
amargarem grandes prejuízos com
infindáveis atuações de assistência técnica,
bem como com importantes danos à
sua imagem.
*LUIZ HENRIQUE CEOTTO É ENGENHEIRO E PROFESSOR CONVIDADO
DA POLI-USP, É DIRETOR DA TISHMAN SPEYER E MEMBRO
DO CTQ DO
SINDUSCON-SP
lhceotto@tishmanspeyer.com.br |